Durante meu curso de pós graduação, estudamos a biografia de alguns líderes empresariais e analisamos diversas características e cada um deles. No final de um debate sobre o assunto, ficamos na mesa com Jack Welch e Steve Jobs, e no debate final eu me encarreguei de ‘defender’ o fundador da Apple.
Não preciso comentar aqui as habilidades do Jack Welch, pois acho que todos já estão pra lá de cansados de conhecer a impressionante biografia dele, mas gostaria de deixar aqui os meus argumentos utilizados naquele debate para explicar o motivo pelo qual eu considerava (e ainda considero) o Steve Jobs como o maior líder no mundo empresarial nas últimas décadas (pra não dizer da história).
Além de todas as habilidades comuns em líderes acima da média, eu acredito que Steve Jobs tinha uma liderança muito acima do normal, por dois motivos.
O primeiro deles, é a capacidade que ele tinha de ousar e inovar. Ela rendeu alguns fracassos (alguém aí lembra do Newton ?), que muitas vezes ocorreram pelo fato de que ele estava mesmo algumas décadas à frente do seu tempo. Líderes empresariais e inovadores em geral criam produtos, Steve Jobs criava mercados. Sua visão não se limitava a simplesmente melhorar algo que já existe, ou inovar a forma pela qual fazemos alguma coisa, mas sim a de propor uma nova forma completamente diferente de fazermos algo ou ainda criar algo simplesmente inimaginável.
Como músico, confesso que fiquei absurdamente cético quando li os primeiros reviews dos iPods, mas fiquei de queixo caído quando tive a oportunidade de usar um, pois a qualidade de áudio dele era absolutamente superior a qualquer coisa que eu já tinha ouvido fora de um estúdio profissional de música. Na época eu fiquei com uma vontade enorme de jogar o meu MP3 Player (um MuVo da Creative Labs) no lixo. Não preciso mencionar aqui que além da qualidade de áudio muito acima da média, o que o Jobs fez com o iPod e com o iTunes é absolutamente louvável: Bateu de frente com a indústria fonográfica, que no início o chamou de louco pelo modelo de negócios proposto mas que em pouco tempo descobriu que lutar contra ele era secar gelo. Esta batida de frente aliás, mostra a ‘generosidade’ do cara em emprestar sua visão avançada e dar uma saída para a indústria fonográfica, que adotou seu modelo de negócios em pouco tempo (e eu duvido que os executivos desta indústria teriam criado um modelo de negócios como este por livre e espontânea vontade).
O segundo motivo que me faz acreditar que Jobs foi um líder sem igual no mundo empresarial, era a forma pela qual ele conseguia liderar a empresa toda para desenvolver novos produtos com sigilo absoluto. Isso não se consegue apenas com contratos de NDA ou coisas do tipo, mas fazendo com que as pessoas se comprometam pessoalmente em trabalhar em silêncio para lançar um produto disruptivo a cada um ou dois anos. Mais do que desenvolver os produtos em silêncio, ele e a empresa ainda conseguiam fabricar e distribuir os lotes iniciais dos produtos sem nenhuma quebra de sigilo, e olha que quando você imagina o número de pessoas envolvidas no desenvolvimento, produção e distribuição destes produtos, chega a ser assustador ver tanto silêncio em toda a cadeia de valor.
Empresas costumam sempre anunciar seus produtos semanas (ou meses) antes dos produtos chegarem ás lojas. Normalmente na Apple, quando acaba um ‘evento de lançamento’ você pode correr para uma Apple Store e comprar imediatamente o produto que acabou de ser anunciado.
Não vou citar aqui o impacto do que o Jobs desenvolveu na Next e o impacto disso na indústria de mídia e na própria Pixar, que fez marmanjos como eu voltar a assistir desenhos animados no cinema (e provavelmente você que está aí deve ter voltado a fazer isso, e duvido que não rolou pelo menos uma lágrima viril no seu rosto no final de Toy Story 3).
Vi alguns amigos do mundo do Open Source criticando alguns elogios feitos ao Jobs, mas gostaria de lembrar-lhes do projeto Darwing (um sistema operacional POSIX que é o core do iOS, MacOS X e Apple TV) e do Darwing Streaming Server , para citar apenas dois projetos em Open Source desenvolvidos pela Apple que mudaram a vida de muita gente (mesmo que elas não tenham noção disso). Eu usei o Darwing Streaming Server durante alguns anos para implementar serviços de Video Sob Demanda baseado em padrões abertos em uma época em que poucas pessoas sabiam o que era VoD ou padrão aberto. Se o Steve Jobs não foi perfeito nesta área, também não podemos dizer que nunca fez nada pelo Open Source.
Acho que perdemos um líder empresarial de primeira linha, um visionário que tornou realidade muitos dos nossos sonhos de criança e duvido que tenhamos tão logo outra pessoa para ocupar seu lugar. Me junto a inúmeros blogueiros que já disseram isso hoje: Muito obrigado Steve Jobs, e descanse em paz !
Jomar Silva é engenheiro eletrônico, pós-graduado em gestão de projetos e desenvolvimento de sistemas e diretor-geral da ODF Alliance Chapter Brasil. Atua no mercado de TI desde 1996, com ênfase no desenvolvimento de software em projetos de pesquisa e para empresas de telecomunicações e TI. Atua ainda como "advisor" em padrões abertos junto à indústria de software. É coordenador do Grupo e Trabalho na ABNT que tratou da adoção do ODF como norma brasileira e membro do OASIS ODF TC (comitê internacional que desenvolve o padrão ODF). Neste espaço, fala de tudo um pouco sobre tecnologias.
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