http://itweb.com.br/Crianças se banhando em rio no interior

Certa feita o delegado de polícia de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais recebeu um chamado estranho: D. Clotilde, viúva de um influente político do estado, uma velha senhora que morava praticamente só em sua opulenta sede de fazenda, reclamava de um atentado ao pudor.

Era um lugar pacato, população conservadora até para os padrões mineiros e naquela época não havia forasteiros na cidade. Um caso deste jamais havia ocorrido por ali. Porém, tendo D. Clotilde herdado o prestígio do defunto marido e sendo figura respeitada na cidade, o delegado se apressou a atendê-la. E tomou o rumo da fazenda com sua velha picape.

Viagem curta, mas prazerosa. Era verão, céu limpo, sol forte, mas as montanhas mantinham a temperatura amena e o dia estava esplêndido. O casarão ficava em frente à estradinha de terra que dava acesso às fazendas mais afastadas, com sua enorme varanda dominando a fachada e uma belíssima vista para o rio do outro lado da estrada. Onde os meninos das vizinhanças aproveitavam o verão para seu banho de rio.

Chegado o delegado, a pundonorosa D. Clotilde mal o cumprimentou e foi direto ao ponto. Mostrando as crianças, a recatada senhora bradou:

- Doutor delegado, veja que vergonha! Que acinte! E bem diante de minha varanda…

O delegado olhou e não viu acinte nem vergonha. Viu um bando de meninos, alguns pré-adolescentes, a se banharem no rio como ele mesmo havia feito tantas vezes em sua juventude. E, confuso, perguntou:

- Mas qual é o acinte, D. Clotilde?

- O senhor não percebe? Os rapazes estão nus! – retrucou ela.

Bem, chamar aquele bando de moleques de “rapazes” era um exagero. Mas, de fato, estavam nus. Afinal, no interior, menino toma banho de rio pelado desde o princípio dos tempos. Aí está a foto que não me deixa mentir (obtida do “Blog do Dudé”, de S. Gonçalo do Amarante). Nudez é o traje oficial para banho de rio, jamais alguém havia se incomodado com isto e, fosse outro o reclamante, o delegado o mandaria pastar e deixaria as crianças em paz. Porém, dado o prestígio de D. Clotilde, melhor intervir.

Disse o delegado à pudibunda senhora que providências imediatas seriam tomadas, atravessou a estrada, chegou ao rio, reuniu os garotos e explicou a situação. Sim, ele sabia que aquele era o melhor ponto para um bom banho, aguas calmas, espraiadas, pedras para sentar ao sol e de onde mergulhar – afinal ele mesmo havia se cansado de tomar banho ali quando menino e a pudica D. Clotilde vivia na Capital com o marido. Mas pediu a compreensão das crianças e sugeriu que eles passassem a tomar seu banho águas acima onde, embora as condições de banho não fossem ideais, ainda eram razoáveis e a curva do rio não permitiria que fossem vistos da varanda.

O delegado era gente boa e pedira com educação. Além disso, não convinha a um garoto do interior manter querelas com o delegado. Então, mesmo um tanto contrariados e, alguns, disfarçadamente endereçando “bananas” à velha que os observava de sua varanda, concordaram. E como daria menos trabalho encerrar o banho daquele dia do que levar as tralhas para o novo local, vestiram suas roupas e tomaram o rumo de casa prometendo ao delegado que o próximo banho seria rio acima.

Pois não é que no dia seguinte o delegado recebe a mesma queixa?

O homem subiu nas tamancas! Ora, vejam vocês, que crianças abusadas! Desrespeitando um acordo feito com ele próprio! Pois a coisa não ficaria assim. Com os brios feridos, partiu furibundo para a fazenda botando fogo pelas ventas.

Em lá chegando, não entendeu a razão da queixa. Pois mesmo antes de entrar nos terrenos da fazenda percebeu que os meninos, conforme acordado, estavam na curva do rio, fora das vistas da varanda de D. Clotilde. Que diabos teria acontecido?

E foi ter com a velha senhora. Que bufava de raiva e soltou os cachorros em cima do delegado. O menos que disse é que, se ele não tinha competência para se impor a um bando de crianças, não deveria ter assumido o cargo de delegado. E que tomaria providências junto ao prefeito e coisa e tal. Levou bem uns dez minutos para se acalmar. O delegado, pacientemente, esperou o clima amainar e, afinal, perguntou:

- Mas D. Clotilde, o que houve? Estamos na varanda e não há sinal dos meninos…

- Ah, é? Pois venha cá que lhe mostro! – retrucou a casta senhora.

E arrastando o delegado pelo braço levou-o à janela lateral da imensa sala de jantar, esticou o braço e apontou para um ponto rio acima.

- Veja o senhor mesmo! A sem-vergonhice continua. Lá estão os cafajestes nus!

- Mas D. Clotilde, mal se consegue avistar os meninos. A distância é grande. E só são vistos desta janela…

- Pois é justamente em frente a ela que me sento para descansar o almoço. E esta visão indecente quase me causou indigestão…

Claro que aquilo era um exagero, pensou o delegado. De cafajestes nada tinham os meninos e chamar seu inocente banho de indecência era um estapafúrdio. Pura implicância com os garotos, vontade pura de reclamar. Mas a velha estava tão agastada que ele receou que ela passasse mal de verdade. E resolveu se livrar do problema vez por todas. Despediu-se de D. Clotilde, garantiu providências e partiu para conversar com os meninos.

Desta vez, por absoluta falta de argumentos, teve que apelar para sua autoridade. Soltou o verbo em cima da meninada e os obrigou a se escafederem dali. Quisessem tomar banho, que fossem para um ponto do rio definitivamente longe das vistas de D. Clotilde, que de aborrecimentos ele já estava cheio. E se ouvisse mais uma reclamação da velha sobre o assunto os garotos se arrependeriam.

E deu os trâmites por findos, retornando à delegacia.

Pois não é que no dia seguinte D. Clotilde torna a reclamar? E lá se vai o delegado de volta à fazenda.

Ao chegar, por mais que se esforçasse, não viu sinal dos garotos. Nem em frente, nem rio acima, nem rio abaixo, nada. Ouvia, é verdade, vindo de muito longe, seus gritos, risadas e a algazarra típica de um bom banho de rio. Em algum lugar do rio, pensou o delegado, eles haveriam de estar. Mas, definitivamente, não eram visíveis da fazenda. Entrou, então, para enfrentar a fera.

E a fera estava mais feroz que nunca. D. Clotilde bufava, esbravejava, vociferava, alegando que os meninos insistiam em tomar banho nus em suas vistas apenas para afrontá-la e que não seria ela a aturar aquele insulto.

Aproveitando uma breve interrupção na diatribe para a velha respirar, o delegado retrucou:

- Mas D. Clotilde, pelo amor de Deus, por que tanto alarido? Ninguém pretende desacatá-la. Os meninos só querem tomar seu banho em paz. Todas as vezes que a senhora reclamou eles se afastaram. E foram para tão longe que mal se consegue ouvi-los. E de sua fazenda sequer se pode vê-los…

E respondeu a velha dando-se por vitoriosa:

- Não se pode? É o que o senhor pensa!

E acrescentou, com um brilho de triunfo no olhar:

- Pois vá até a cozinha, ponha uma cadeira sobre a mesa, suba nela até alcançar a abertura de cima da janela, olhe de binóculo e me diga se não consegue ver os patifes!

Pois é…

D. Clotilde queria mesmo era reclamar…

 

*             *             *

 

O que me fez lembrar esta historinha – que o colega Xandó chamaria de causo – foi o número de vezes que tenho visto, seja nas redes sociais, seja nos sítios da Internet que tratam de tecnologia, comentários sobre certa mensagem de erro que, muito eventualmente e em circunstâncias bastante específicas, surge nos telefones espertos (“smartphones”) que rodam Windows 8. Uma mensagem um tanto esdrúxula que acusa um erro e, para corrigi-lo, pede para “inserir o disco de sistema” (veja uma tela com a dita mensagem no artigo de Emil Protalinski “This is the funniest Windows error message you’ve ever seen”).

Inserir um disco em um telefone?

De fato é estranho. Tão estranho que, se o preclaro leitor se der ao trabalho de fazer uma pesquisa no Google sobre o assunto, encontrará dezenas de artigos e postagens em blogs, algumas até de gente que deveria saber o que está dizendo, todas em tom de escárnio. E a maioria em geral fica nisso mesmo, tipo “vejam só, um telefone pedindo para inserir disco de instalação, que ridículo”. Só um ou outro se preocupa em apurar as condições e razões que levam à exibição de mensagem aparentemente tão estrambótica.

Quem o fez descobriu que, sempre que a mensagem aparece, o usuário está fazendo o que não deveria. Como Johny Ruokokoski, que ao receber a dita mensagem solicitou ajuda ao suporte do Windows Phone e publicou sua troca de “twits” com a empresa. O suporte pergunta: “O que você fazia ao telefone quando a mensagem apareceu?”. Ruokokoski responde: “Eu estava apenas alterando um pouquinho sua memória flash de brincadeira :) ” (“I just played with flashing a little bit :) ”). E, naturalmente, o suporte retruca que, com o conteúdo da memória “flash” alterado, eles não estavam em condições de prover qualquer ajuda.

Por que?

Ora, porque a memória flash que Ruokokoski “brincava de alterar um pouquinho” contém o cerne (“kernel”) do sistema operacional e todo o software de sistema. “Brincar” com ela, em termos de software, corresponde, em termos de hardware, mais ou menos a desmontar o telefone para ver como funciona sem saber montar depois…

Ora, não é segredo para ninguém (e agora, com o ocorrido, ficou mais que demonstrado), que Windows 8 é um sistema que roda tanto em poderosos servidores quanto em pequenos dispositivos portáteis. É claro que são necessárias algumas adaptações para suportar plataformas tão diferentes, mas o cerne do sistema é o mesmo. E é nele que estão gravadas as mensagens de erro mais radicais, aquelas para qual somente se deve apelar quando alguma coisa dá muito errado e é necessário refazer o sistema – por exemplo: quando um usuário desavisado resolve, “só de brincadeirinha”, alterar o cerne do SO para ver o que acontece.

Então, diante da tal mensagem, os comentaristas de informática que pululam pela Internet – pelo menos aqueles que sabem sobre o que estão comentando – deveriam, sim, repercutir o fato, mas informando a seus leitores que o aparecimento daquela estranha mensagem realmente comprova que o cerne (“kernel”) de Windows 8 usado nos pequenos aparelhos celulares é o mesmo das grandes máquinas de mesa, o que é quase uma façanha tecnológica.

Em vez disto eles se contentam em incluir uma nota na seção de humor, como aqueles usuários cujos comentários mais inteligentes nas redes sociais se resumem a um cacarejante “KKKKKKKKK”, fazendo pouco do fato e sem sequer apurar suas razões…

Pensando bem, o mundo está cheio de donas Clotildes…

B.Piropo

  • http://www.facebook.com/barbara.raia Bárbara Raia

    Você tinha razão. Este texto merece! Se eu fosse você, continuava recomendando. Estou chorando de rir da cadeira na cozinha e binóculo da dona Clotilde hahahahah

  • klauss

    Olá!
    Ótimo causo e ótimo texto!
    Mas eu acredito que muitos dos que fazem piada do dito erro, o fazem até por ter conhecimento da façanha tecnológica, como citou, que com certeza demandou muito tempo, trabalho e conhecimento, e pra “corrigir” essa mensagem não deve ser muito problemático. Mesmo a pessoa tendo “fuçado” onde não devia, para se visualizar a mensagem ela deve estar em algum arquivo ou em alguma linha em algum arquivo certo? É só substituir este arquivo ou linha nos W8 que forem destinados a Smartphones.

  • Marcos N. Pesic

    Grande Piropo ! Suas colunas sempre são interssantes, e os “causos” mais ainda.

    Continue escrevendo !

  • Valdir lima

    Dona Clo na verdade não queria reclamar, mas ver os meninos pelados!

  • Olavo Sampaio

    Como sempre….muito bom…. Parabens

  • Eduardo CPD

    Incrível a capacidade de alguns “gênios” de fazer um assunto bobo se transformar em uma história interessante de se ler. Parabéns Piropo, seu texto é fantástico.

  • Jaime

    Mestre Piropo,
    Infelicidade a minha de não conhecer seus textos anteriores. É o segundo que leio aqui no site e o parabenizo pela obra literária que redige na coluna. Parabéns mesmo!
    Forte abraço,

  • Carlos E F Roland

    Caro Piropo,

    Não sei qual qual sua experiência com hardware, mas é bastante factível se supor que um “cerne” como você define (eu prefiro núcleo como sinônimo de kernel), não deve, tecnicamente, ser o mesmo para arquiteturas tão diferentes quanto “telefones espertos” e grandes servidores… Um dos dois vai, necessariamente, funcionar mal!

    Como instalador de servidores, prefiro claro, que os “telefones espertos” sejam os maiores prejudicados…

  • Pedro Teixeira

    Mestre Piropo deveria, ou talvez seja, amigo do grande Rolando Boldrin, o senhor Brasil, outro bom contador de “causos” , mas o que essa leitura me trouxe mesmo foi saudade do forumpcs!!

  • Joaquim Garcia

    Oi Piropo! Mas a questão que não foi trazida à tona é a da vulnerabilidade, certo! Acessar o “flashing” não deveria ser fácil permitindo “desmontar” o Sistema Operacional.

  • http://www.facebook.com/people/Wagner-Felix/661933705 Wagner Felix

    “Offtopic” pra quem começou a ler o Piropo agora, acho que quase tudo que ele escreveu nos tempos do ForumPCs esta aqui: http://www.bpiropo.com.br/es_fpc1.htm

    Recomendo muito a leitura das séries sobre Nicola Tesla e Charles Babbage(Analytical Engine).

  • Manoel Junior

    Concordo, acredito que tem muita gente que apenas se preocupa em apontar as falhas, não levam a discussão para o caminho construtivo estão ali apenas para falar mal.
    ou como disse Platão. “O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa.”

  • http://www.facebook.com/rodrigolsalgado Rodrigo Salgado

    Excelente texto, tanto pelo “causo” quanto pela crítica bem posicionada!

  • http://www.facebook.com/people/Sr-Akira/1317633239 Sr. Akira

    Na verdade…
    O Android é um Linux e o Ios é uma versão alterada do OSX.
    Que é o mesmo caminho usado pelo Windows Phone.
    Já que conhecem tanto mais, como isso aconteceu no Windows Phone e nāo no Ios e Android?
    Eu acho estranho.

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